É concebível que meus olhos estivessem abertos / It’s not inconceivable that my eyes were open

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ARTISTAS

AMANDA DEVULSKY, ALETA VALENTE, ANA VAZ, ANITTA BOA VIDA, BRIGIDA BALTAR, DEBORAH STRATMAN, LAURA HUERTAS MILLAN, LUISA MARQUES, LYZ PARAYZO, NAIME PERRETTE

É concebível que meus olhos estivessem abertos é um verso da poeta polonesa Wislawa Szymborska. A autora relê otexto bíblico da Genesis (19,1-26) em que “A mulher de Lot” – a quem a Bíblia não deu um nome – perde sua vida por um olhar: ao fugir de Sodoma com o marido e as filhas, volta-se pra trás e recebe o castigo anunciado: seu corpo transforma-se em uma estátua de sal.

Esse momento atrai a atenção poética de Szymborska, queelabora uma lista de razões pelas quais a esposa de Lot teria se voltado uma última vez para a cidade perdida. Ela olhou para trás “de solidão”, “de vergonha de fugir às escondidas”, “de raiva” e, ainda, “pela desobediência dos mansos”, enquanto as interpretações bíblicas descrevem o castigo como o triste corolário de uma curiosidade qualificada como “feminina”. 

A esposa de Lot vira-se como em uma dança, onde o corpo inteiro se volta pra trás e não importa mais se os olhos estão abertos, se estão vendo algo, ou se é só imaginação.

 

Se alguém me visse, por certo acharia que eu dançava.

É concebível que meus olhos estivessem abertos.

É possível que ao cair meu rosto fitasse a cidade.

 

O que importa é a intenção, o que sobra é o gesto que individualiza uma mulher duplamente anulada: uma mulher sem nome e fadada a virar sal, virar cristal, o máximo do inorgânico, imobilizada até suas vísceras por ter desobedecido às leis de Deus e dos homens. 

A seleção de vídeos segue uma linha que busca o feminino como tópico relacionado a esse outro não revelado e não revelável, uma gama de forças psíquicas e sociais sobre as quais os indivíduos têm pouco ou nenhum controle, e que,por isso, causam medo e tendem historicamente a ser reprimidas: na vida, mas também na arte.

O primeiro programa é sobre intuições, epifanias e olhares femininos voltados para a a natureza – pois as forças da “criação” são intimamente ligadas a esse segredo. O segundo é sobre os corpos: vozes femininas que dançam em volta de corpos massacrados, fragilizados, exilados, marginalizados, que acolhem e revelam suas fragilidades.